Praça se transforma com mobilização comunitária e pode receber o nome de André Assis, liderança histórica do Parque Júlio César
O que antes era um espaço marcado pela degradação urbana hoje é um exemplo claro do poder da mobilização legítima, voluntária e cidadã para ressignificar a ocupação dos espaços públicos. A Praça Alameda Paradiso, localizada no Parque Júlio César, entre a Alameda Paradiso e Rua Machado Neto na Pituba, está no centro de um processo exemplar de transformação coletiva, diálogo com o poder público e construção de um legado social.
Associação AME Júlio César: A Força da Mobilização Popular
O movimento é liderado pela Associação AME Júlio César, presidida por Valdner Rodrigues Gonçalves, que vem unindo moradores, frequentadores e instituições para recuperar o espaço e devolver à praça seu papel de local de convivência, lazer e segurança.
Por meio da Associação AME Júlio César, foram protocoladas junto ao gabinete do vereador Cláudio Tinoco uma série de solicitações que refletem as principais demandas dos moradores. Entre elas, destacam-se:
Além disso, os moradores levaram ao poder público outra importante demanda: a realização de um estudo técnico para a implantação de uma quadra de areia destinada à prática de modalidades esportivas como vôlei, futevôlei e treino funcional. A região carece de espaços públicos voltados para essas atividades, o que obriga muitos praticantes a se deslocarem para bairros vizinhos e utilizarem espaços privados. A proposta da comunidade é que o equipamento seja planejado com responsabilidade ambiental, respeitando a vegetação existente e priorizando soluções sustentáveis.
Esses pedidos, somados às ações já em andamento, fazem parte de um plano coletivo de cuidados contínuos com a praça, visando segurança, convivência e preservação.
“Essa luta é feita por pessoas que realmente se importam. Cuidar da praça é cuidar da história, do presente e do futuro do nosso bairro. A mobilização é legítima, pública, voluntária, e prova que quando a população se une, é possível transformar”, destaca Valdner.
O gabinete do vereador Cláudio Tinoco tem sido fundamental para encaminhar as demandas da comunidade junto à Prefeitura, com o apoio do prefeito Bruno Reis. Intervenções envolvendo órgãos como LIMPURB, TRANSALVADOR, SUCOP e DESAL já estão em curso.
“Essa revitalização atende a um desejo antigo da comunidade. As praças precisam ser vivas, seguras, bem cuidadas e feitas sempre através do diálogo direto com a população”, defende o vereador Cláudio Tinoco, que articula os encaminhamentos com o Executivo Municipal.
Melhores Condições e Novas Infraestruturas
Entre as principais ações realizadas, a limpeza geral e a lavagem da praça foram destaques, especialmente por terem ocorrido pela primeira vez na memória dos moradores. Também foram realizadas podas de árvores, com possibilidade de erradicação daquelas que apresentarem risco de queda. Está em andamento, ainda, um estudo técnico para a substituição do piso, por estarem danificados, responsável pela ocorrência de quedas e até fraturas, especialmente entre os idosos que utilizam a praça para realização de atividades ao ar livre e a área de convivência, assim como crianças, pets e transeuntes.
Além disso, estão em fase de implementação projetos de revitalização da sinalização e ações educativas voltadas à conscientização, com foco no uso responsável do espaço público. Também está prevista a criação de um espaço exclusivo para pets — uma antiga demanda da comunidade que visa tornar a praça ainda mais inclusiva e funcional para todos os frequentadores.
“Essas melhorias contribuem diretamente para o bem-estar da população. Quando valorizamos nossos espaços públicos, estamos fortalecendo o tecido social do bairro”, avalia Beto do Conselho, Líder Comunitário da Pituba.
Segurança e Ordenamento
Na reunião comunitária realizada em 31 de julho, moradores debateram o controle do trânsito irregular de motociclistas, que representa um risco para frequentadores, em especial crianças e idosos. O tema foi levado ao Major Jefersson, da 13ª CIPM, e integrantes da TRANSALVADOR, que se comprometeram a promover ações educativas e campanhas de conscientização para ordenamento do tráfego. O Major mostrou-se favorável à possibilidade de disponibilizar viaturas para reforçar a presença das guarnições na região, ampliando a segurança local.
Em parceria com comércios locais e condomínios vizinhos, também será realizada a instalação de câmeras de monitoramento que auxiliarão na identificação e combate a infrações, contribuindo com a segurança pública, além da implementação de sinalização específica sobre a circulação de motocicletas na praça.
Um Pedido Antigo da Comunidade
Outra pauta antiga que voltou a ser discutida é a implantação de um equipamento esportivo público, uma quadra de areia, destinada à prática de vôlei, futevôlei e treino funcional, atividades em crescente popularidade em Salvador.
A região do Parque Júlio César é carente de espaços públicos para esportes, o que obriga os moradores a se deslocarem para bairros vizinhos. O pedido de estudo técnico para a viabilidade da quadra de areia prioriza a preservação ambiental, garantindo que o projeto seja desenvolvido com respeito à vegetação nativa existente no local, sem comprometer o ecossistema da área.
“Sentimos falta de um espaço público para praticar esporte no Parque Júlio César. Atividades como vôlei e futevôlei em quadra de areia têm crescido muito, mas, infelizmente, nossa região ainda não dispõe de um espaço público que atenda a essa demanda. Ter uma quadra de areia seria ótimo para a comunidade, especialmente para os jovens e idosos que buscam qualidade de vida sem precisar sair do bairro”, destaca Kawan Silva, advogado, morador há mais de 28 anos e líder comunitário do Parque Júlio César.
Comércio e Vida Comunitária
Como parte do processo de revitalização, a praça já conta com um novo restaurante que em breve estará em pleno funcionamento, fomentando o comércio local e aumentando o fluxo de pessoas, fator que naturalmente reforça a segurança e o sentimento de pertencimento da comunidade.
Uma homenagem que nasce do afeto e da história
Em meio a um movimento genuinamente popular, ganha força a proposta de renomear a Praça Alameda Paradiso para Praça André Assis, uma homenagem a André Luiz Quintella Assis, liderança comunitária falecida em 8 de maio de 2025, após intensa luta contra o câncer, deixando esposa e filho. Aliás, já há moradores e frequentadores que, de forma espontânea, passaram a chamar o local de Praça André Assis, demonstrando o afeto e a admiração por sua história. André costumava reunir com frequência amigos e familiares na praça, onde fortalecia os laços que sempre prezou dentro da comunidade.
Nascido em 24 de março de 1967, em Salvador-BA, André mudou-se ainda pequeno, em 1969, para Esplanada-BA, onde seu pai, Sr. Oswaldo Assis, foi vereador e delegado. Em 1979, a família retornou à capital, e André viveu por mais de 46 anos na Pituba, sendo 42 deles no Parque Júlio César, onde constituiu sua família e se tornou uma das vozes mais ativas da região.
Ex-aluno do Colégio Nobel, já nos anos 1980 se destacava como produtor das noites de karaokê da famosa casa de eventos “Carinhoso”, atualmente ocupada pelo Colégio Integral. Reconhecido pelo comprometimento com as causas populares, sua trajetória ficou marcada pela firme atuação política, presença constante nas rádios, redes sociais e pela defesa incansável das demandas da população, especialmente no âmbito municipal.
Seu engajamento social era voltado para a melhoria da vida no bairro, com atenção especial a temas como segurança pública, mobilidade urbana, iluminação pública, assistência social, entretenimento, convivência comunitária e, sobretudo, à manutenção e valorização dos espaços públicos, como praças e ruas do Parque Júlio César e da Pituba.
“Mesmo nos momentos mais difíceis de sua doença, quando já estava em cadeira de rodas, André fazia questão de frequentar a praça, ainda que por curtos e preciosos instantes, demonstrando seu amor pelo local que tanto significava para ele”, relembra Alberto Furquim, morador da Pituba há mais de 61 anos, que guarda até hoje um vídeo especial passeando com André pela praça.
Mesmo com deficiência visual (baixa visão), André levava uma vida ativa e independente. Era comum vê-lo pedalando pelas ruas da Pituba e Amaralina com sua inseparável cachorrinha, numa rotina que unia saúde, liberdade e afeto. O ciclismo, que praticava com entusiasmo, precisou ser interrompido após o diagnóstico da doença que, mais tarde, tiraria sua vida. Sua bicicleta, símbolo dessa fase, hoje permanece pendurada na parede da sala de seu sobrinho, guardada como lembrança e homenagem à sua força de espírito.
“O Parque Júlio César e a Pituba sempre foram um refúgio para ele, desde à sua época de Nobel, é sem dúvidas, uma região carregada de memórias e esperança, onde seu maior desejo era ver a comunidade unida, defendendo-a e valorizando seus próprios espaços. Hoje, sigo firme nessa missão, dedicado a preservar seu nome e manter vivo o legado que ele construiu para todos nós”, afirma Matheus Assis, filho de André, morador da região há mais de 25 anos e liderança comunitária do Parque Júlio César.
Presença constante nos jogos de dominó, incentivador do comércio local e defensor das tradições do bairro, André Assis deixou uma marca profunda na vida comunitária da Pituba. Participava ativamente do Centro Comunitário da Pituba, onde promovia a integração entre moradores e visitantes. Era também ponto de encontro com amigos, colegas e familiares, que se reuniam ali em eventos com frequência em torno do convívio, das conversas e da construção coletiva. Foi nesse mesmo local que ocorreu a missa de 30 dias após seu falecimento, reunindo familiares, vizinhos e representantes públicos num ato de emoção e reconhecimento.
“André não era só meu amigo, era meu irmão de alma. Viemos juntos de Esplanada e, há mais de 40 anos, construímos nossas vidas aqui na Pituba. Ele tinha um dom raro: unia as pessoas, dava voz à comunidade, fazia todo mundo se sentir parte. No Centro Comunitário, ele era presença, era movimento, era coração. Dar o nome dele a essa praça não é só justo, é fazer justiça à memória de um homem que nunca parou de lutar por todos nós.”, Comenta, Hugo Moreira, amigo de infância, irmão de vida e voluntário do Centro Comunitário e morador da Pituba há mais de 40 anos.
Diante de sua história e legado, uma mobilização popular espontânea propôs a renomeação da atual Praça Alameda Paradiso, para Praça André Assis. Em reconhecimento aos serviços prestados à comunidade, o vereador Cláudio Tinoco, por meio de seu gabinete, comprometeu-se a apresentar um projeto de lei na Câmara Municipal de Salvador com esse objetivo. Se aprovado pelos vereadores, o projeto será encaminhado para sanção do prefeito Bruno Reis, consolidando a homenagem e perpetuando a memória de um homem que fez da luta coletiva e do amor ao bairro sua principal missão de vida.
“Dar o nome de André Assis à praça é manter viva a história de quem sempre lutou por ela e pelo Parque Júlio César. Ele representa o que há de mais bonito na luta por uma comunidade mais justa, unida e participativa. Ainda debilitado pela doença, lutando dia a dia pela vida, nunca deixou de ajudar ao próximo”, destaca Élio Costa, morador do Parque Júlio César há mais de 20 anos.
“Como síndico do Edifício Cláudio, vejo na praça um espaço que fortalece o convívio e a segurança. Homenagear André Assis é reconhecer um homem que personificou o compromisso com a nossa comunidade e foi sem sombra de dúvidas uma pessoa que viveu com o propósito de ajudar”, afirma Washington Costa, síndico do Edifício Cláudio e morador da região há mais de 10 anos.
Contexto Histórico: Parque Júlio César e a Importância dos Espaços Públicos
O Parque Júlio César é uma das primeiras grandes estruturas de condomínios verticais de Salvador, lançado nos anos 1970, no contexto da urbanização acelerada e da verticalização emergente na cidade. Projetado inicialmente como um conjunto habitacional aberto, o Parque não possuía muros ou portarias. As edificações eram conectadas por vias internas, calçadas e praças livres de barreiras físicas, inspiradas em conceitos modernos de urbanismo que privilegiavam a integração e a convivência comunitária.
Essa proposta urbanística, no entanto, colidiu com a realidade crescente da insegurança urbana na capital baiana. A ausência de muros, inicialmente pensada como símbolo de liberdade e coletividade, acabou expondo moradores a riscos constantes, como assaltos, invasões e tráfico de drogas. Ainda nos anos 1980 e 1990, o Parque Júlio César enfrentou um período crítico, sendo estigmatizado por episódios de violência, abandono e descaso por parte do poder público.
Foi nesse cenário que emergiu a força da organização popular. Ao longo das décadas seguintes, os próprios moradores passaram a se mobilizar, promovendo reformas internas, criando conselhos comunitários, buscando interlocução com autoridades e realizando mutirões para cuidar de praças e jardins. A construção dos primeiros muros e portarias, a implementação de sistemas de segurança, a fundação do Centro Comunitário da Pituba e a ocupação afetiva dos espaços públicos foram ações decisivas para reverter o processo de degradação.
Hoje, o Parque Júlio César representa o equilíbrio entre o passado e o presente de Salvador. Localizado na Pituba, bairro que simboliza a transição entre a cidade histórica e a metrópole moderna, o Parque mantém suas praças arborizadas, a memória dos seus moradores mais antigos e um espírito comunitário que resiste ao tempo. O nome do local, uma homenagem ao imperador romano Júlio César, remete à liderança e à força coletiva que moldaram sua trajetória.
Essa mobilização atual, que além de promover revitalização e manutenção, busca nomear a Praça Alameda Paradiso como Praça André Assis, é o mais recente capítulo dessa história de resistência e construção coletiva. Mostra que o protagonismo popular, aliado ao diálogo com o poder público, é capaz de transformar realidades, fortalecer laços e reencantar os espaços urbanos com dignidade e afeto. O legado de André Assis, figura central nessa história, inspira essa jornada que já produz frutos para toda a Pituba.
0 Comentários