O Silêncio Universalita -Livia Vaz

Publicado por Albry Alves em 03/04/2026 às 12:18



A iniciativa da promotora baiana Lívia Sant’Anna Vaz ganha relevância não apenas no campo jurídico, mas também no debate internacional sobre justiça racial e memória histórica. O lançamento, na França, de sua obra “Quotas Raciaux : pour une égalité réelle” representa um movimento estratégico de internacionalização de uma experiência brasileira que, nas últimas décadas, vem sendo referência no enfrentamento das desigualdades raciais.

Ao levar o debate das cotas raciais para o contexto europeu, a autora confronta diretamente o modelo francês de “universalismo republicano”, que tradicionalmente evita reconhecer diferenças raciais no espaço público. Esse modelo, embora fundado na ideia de igualdade formal, tem sido criticado por dificultar o diagnóstico das desigualdades reais — sobretudo pela proibição ou limitação da coleta de dados étnico-raciais.

No Brasil, ao contrário, políticas afirmativas implementadas desde os anos 2000 — especialmente após a validação pelo Supremo Tribunal Federal — permitiram avanços concretos. Universidades públicas e concursos passaram a refletir melhor a composição racial da população, ampliando o acesso de pessoas negras e de baixa renda a espaços historicamente elitizados.

O argumento central da obra de Lívia Sant’Anna Vaz é direto: não é possível combater o racismo sem nomeá-lo. Ao criticar o “silêncio universalista” europeu, ela aponta que a recusa em reconhecer categorias raciais acaba por perpetuar desigualdades estruturais, ainda que sob o discurso de igualdade abstrata.

Esse debate ganha ainda mais peso diante de episódios recentes no cenário internacional, como a postura de países europeus em votações na Organização das Nações Unidas relacionadas à escravidão transatlântica. A abstenção de nações como a França evidencia, segundo a autora, uma dificuldade persistente em encarar o passado colonial e suas consequências contemporâneas.

Ao conectar Brasil e Europa, a obra propõe um diálogo incômodo, porém necessário: enquanto o Brasil — com todas as suas contradições — avança na construção de políticas de reparação, parte da Europa ainda resiste até mesmo ao reconhecimento estatístico da desigualdade racial.



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