O Carnaval de Salvador e a Miopia dos Grandes Patrocínios

Publicado por Albry Alves em 05/02/2026 às 08:59



O Carnaval da Bahia é, por essência, uma manifestação espontânea e democrática. É a maior vitrine da nossa identidade. No entanto, vivemos hoje um paradoxo perigoso: enquanto a festa bate recordes de faturamento e visualizações globais, os verdadeiros protagonistas — os blocos afro, afoxês, grupos de samba e de sopro — enfrentam uma asfixia financeira sem precedentes.

Estima-se que a economia local movimente cerca de R$ 2,6 bilhões durante a folia. Contudo, o atual modelo de gestão de patrocínios, centralizado pela Saltur, tem drenado os recursos das entidades tradicionais para os cofres públicos. Marcas globais estampam seus logos em postes e isopores, mas o investimento direto na “fábrica” do Carnaval — aquela que emprega costureiras, artistas plásticos, músicos e cordeiros — está desaparecendo.

Diferente do que ocorre no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde as cervejarias e grandes marcas apoiam diretamente as agremiações que fazem o espetáculo, em Salvador o recurso fica retido na infraestrutura municipal. O resultado é visível: as entidades que mantêm viva a economia criativa nos bairros e periferias estão sendo excluídas da riqueza que elas mesmas ajudam a gerar.

Não podemos aceitar que o Carnaval se resuma a uma estratégia de marketing de grandes cervejarias. É urgente repensar este modelo. O patrocínio privado não pode servir apenas para o “asfalto” e para as grandes estrelas; ele deve chegar na ponta, fortalecendo quem mantém a tradição de pé o ano inteiro.

A cultura baiana não é apenas um cenário para vender bebida; é o sustento de milhares de famílias e a alma da nossa cidade. Sem o devido repasse e apoio direto aos blocos, o Carnaval de Salvador corre o risco de se tornar um grande evento vazio, com muita marca no poste e pouco tambor na rua.

Fonte : Sistema Juridico Aplicado ao Carnaval;

SEFAZ



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